domingo, 10 de julho de 2011

Ponto



Eu queria saber contar uma dessas histórias com asas, e não é porque eu quero que elas se percam por aí ou que fiquem zanzando pela casa. Mas eu queria que elas tivessem asas pra eu poder saber que são livres e que sim, podem viajar e contar essas histórias para quem quiser ler.

E sabe, eu queria poder te falar de como é o frio aqui no mês de junho, as pessoas andam de dentes travados e pulsos serrados; elas sorriem com os olhos quando provam qualquer coisa mais quente a própria saliva. É engraçado, logo elas que chamaram tanto pelo frio, o querem bem longe. Como eu e você. Na verdade, como eu fiz com você.

Acho que você se lembra, mas aqui a sala e o quarto são o mesmo cômodo, ah sim, você deve se lembrar, você sempre adorou o fato de poder fazer tantas coisas sem precisar sair da cama, e me mandava com uma piscada ir até a cozinha buscar um pedaço de bolo pra você.

E eu sinto falta, essa é a verdade. Você não faz idéia de como os feriados ficam sem você, porque eu sinto falta de ter que ir até a cozinha pra você, sinto falta da sua respiração ao meu lado a noite, do cheiro do seu café impregnando todo o meu apartamento de manhã e da sua voz, rouca e alta. Você não sabe, mas às vezes quando troco a receita do bolo ou quando resolvo não fazer café eu ouço sua voz lá na nossa sala, do nosso quarto; a sua voz alta, com aquela ênfase na primeira silaba, me chamando como quem chama qualquer coisa que seja de sua posse, ouço sua voz e sorrio molhado. Ligo a Cafeteira e faço seu bolo preferido.

Eu ainda compro barras de chocolate, e é impossível não lembrar de como você achava estranha a minha mania de comprar chocolates, pra depois eu me contentar com dois pedaços. Você achava estranho, mas sorria ao ficar com a barra toda de chocolate. E veja bem, agora eu tenho pilhas de barras de chocolate pela casa, só esperando pela sua voz alta me falar que existem sim barras menores, e esperando você sorrir e comer o resto.

Mas, ao que tudo parece, eu precisaria de histórias com asas pra te contar como eu sinto falta disso, e embora eu tenha mandado você embora e jogado aquele violão pela janela eu o quero de volta, o quero pra mim, pisando forte no meu açoalho, chamando meu nome e piscando pra mim com um sorriso no canto da boca. Mas, meu bem, essas letras não voam, percebe? E talvez você nunca saiba como é frio no mês de junho aqui, e talvez você não saiba das barras que estão te esperando e talvez você nunca saiba como foi que eu me arrependi de ter gritado que eu não o queria com aquele café doce nas minhas manhãs. E por ter letras que não voam, você também não sabe como foi minha decepção quando eu as joguei pela janela e elas se espatifaram na calçada. Como o seu violão.

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1 Sonharam comigo:

Fernanda Zanol. disse...

Ai que lindo Du!
Eu nunca sei o que comentar dos teus textos, porque eles são tão intensos e perfeitos que nem preciso dizer mais nada. E quer saber? Eu acho que as tuas palavras voam sim, tu só precisa soltá-las. ;)

beijão!